
22 jan De olho da rua
Há um poderoso toque de recolher que, embora subjetivo, faz uma caminhada noturna parecer suicídio. Aliás, há alguns anos, um amigo meu, em crise fulminante de adolescência e desgosto, tentou o suicídio de forma curiosa: vestiu sua melhor roupa e foi desafiar a madrugada da cidade. Como um fantasma expressionista, viajou de paletó e gravata nos piores becos de São Paulo, torcendo para ser assaltado e morto. Terminou – não a vida, mas a morte – com um copo de vinho Sangue de Boi entre as mãos.
Paulo, correndo por fora das academias, nos apresenta seu delicioso achado: a poderosa beleza plástica e sensível dessa vida. E, mais importante, que essa plasticidade, essa sutileza, pode ser encontrada aqui e agora, dando alguma dignidade pra esse nosso insano exercício cotidiano.
Médico, psiquiatra, analista junguiano, ex-cronista do Jornal da Tarde, Paulo Bloise é também autor de O Tao e a Psicologia
Paulo Vicente Bloise