
24 jan Mitologemas – Encarnações do mundo invisível
Sylvia Mello Silva Baptista Psicóloga, analista junguiana, membro da SBPA
James Hollis
Editora Paulus (2005)
Depois de definir o termo que dá nome ao livro –Mitologema é o elemento ou tema isolado em qualquer mito-, Hollis chama a atenção para a nossa cultura cada vez mais comprometida com o âmbito da matéria, onde o mito, ao lado da metáfora e do símbolo, torna possível o acesso ao mundo invisível, e permite o equilíbrio espiritual, tão absolutamente necessário. Coloca assim, no meu entender, o dedo em uma dolorosa ferida da contemporaneidade, e traz à luz, em inúmeros momentos, Jung e seu questionamento sobre o mito pessoal que devemos sempre buscar.
Através de uma linguagem clara e cativante, abre o caminho de seu pensamento discorrendo sobre mitos, sonhos, psique e a questão religiosa; dinâmicas invisíveis que se fazem presentes por meio de metáforas. Para o autor, nós analistas não somos padres à paisana, mas, antes servos do deus Hermes, guia da jornada em direção a nós mesmos; e conosco caminha a responsabilidade de preservar, quando não criar, o locus mítico perdido pelo homem moderno. Como o deus, portavoz do regente Zeus, nos é dada a tarefa de revelar as intenções divinas.
“Quando queremos descobrir o que os deuses estão pensando, examinamos o investimento do espírito nos artefatos dos sintomas, nos complexos, nos padrões, nos sonhos. Cada um deles é um local para o espírito se manifestar” (p.40)
Através do aprofundamento do olhar sobre o arquétipo da criança, dos pais, do herói, do movimento ascendente e descendente, da morte e renascimento, Hollis vai se aproximando, de maneira envolvente, do que compõe o universo dos mitologemas, para, finalmente, nos colocar mais de frente a questões essenciais: “Que deus está em ação aqui?”, “Até que ponto estamos em relação com o mundo invisível e até que ponto ele está funcionando de forma autônoma, nos ajudando ou nos vitimando?”, “Qual deus foi ofendido aqui?”, “Que tipo de energia governa a nossa história?” –coletiva e pessoal. Ressalta que a agenda da psique é diferente da agenda do ego, e que a tragédia é forjada pela inconsciência.
James Hollis tem o dom de provocar no leitor aquela sensação identificável nos textos profundos e simples: o prazer de ver descortinado colocações que gostaríamos de ter feito. Ele próprio se faz, desse modo, portavoz mercurial de verdades da psique, bordadas no papel com encanto e arte.
Só resta a nós, filhos do conflito apolíneo-dionisíaco, nos embevecermos com a vibração de sua lira.
Mitologemas é leitura prazerosamente obrigatória aos amantes do real intangível! Nosso encontro com esse mundo se dá pela metáfora e analogia. Sendo assim, e sendo o poeta, nas palavras do autor, “um viajante órfico que retorna ao mundo visível trazendo metáforas”, deixo aqui o testemunho de um deles:
que será
que tem lá embaixo
que a pedra tomba
tão fácil?
Paulo Leminski “La vie en close”, São Paulo: Brasiliense, 2004